Crónica da semana | Velha aos 36

36Hoje queria escrever sobre o que é ter 36 anos.

Não porque seja uma idade especial, ou porque tenha atingido um marco na minha vida. Não, não fiquei subitamente sábia e iluminada ao passar a fasquia dos 35. O que fiquei foi mais velha.

E não uso a palavra velha com o termo de ter idade a mais para, mas sim com o sentido de ter passado a ser fisica e mentalmente incapacitada para.

Mas, há diferenças? – perguntam vocês.

Claro que há! Senão vejamos…

Até há cerca de dois meses atrás, quando ainda não tinha transposto a barreira dos 35, podia concorrer a concursos de escrita para jovens autores, podia candidatar-me a vagas de emprego que pedem anos de experiência mas colocam limites de idade, a nível de saúde não estava dentro de nenhum grupo de risco. Bolas, estava no auge da vida! O céu era o limite.

Então, o que mudou no espaço de um dia? O que mudou naquele exacto instante em que o relógio deu as doze badaladas e deixei de ter 35 anos para passar a ter 36?

NADA. Exacto, é isso mesmo – não mudou nada. Mas, aparentemente, há por aí muita gente que haja que sim!

É que desde que passei para os 36 deixei de poder fazer tanta coisa que, assim de repente, não sei se me considero fisicamente incapacitada, mentalmente inválida ou boa para a reforma antecipada… Assim, no espaço de um mísero minuto da minha vida, deixei de estar apta para trabalhar, deixei de ser considerada jovem e passei a constituir uma preocupação para o sistema nacional de saúde 🙂 WOW, até para mim é muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, caramba!

E isto deixa-me de pés e mãos atadas, sem saber muito bem se hei-de rir-me da imbecilidade de quem pensa que, efectivamente, passar dos 35 anos é sentença de morte, ou se lhes hei-de dar o real tabefe que merecem.

Porque – hey, novidade das novidades! – ter 36 é a porra da mesma coisa do que ter 35. Posso até dizer que, com esta idade as pessoas ficam mais maduras e com maior noção do que é a responsabilidade de ter (e ter que manter) um emprego. Porque, de um dia para o outro, não deixei de dar umas boas gargalhadas e não deixei de ter um espírito jovial (que é o que define a nossa verdadeira idade!) e não me enchi de rugas e fiquei com ar de 80 anos. Caramba, pois se estou em melhor forma e com melhor aspecto do que quando tinha menos dez anos do que agora!

Não conheço a realidade de muitos outros países mas dos que tenho conhecimento de causa, o factor idade não é um elemento discriminatório para nada. As capacidades das pessoas não se medem pela idade que têm mas pelas suas qualidades humanas, pelas suas capacidades laborais, pela maturidade perante situações mais difíceis, pelo conjunto que as suas experiências de vida fazem dela enquanto indíviduo.

E, quanto a isso, me perdoem os vintinhos, nós os trintões batemo-los aos pontos.

Blue drug

Facebook_addict

Achei esta ilustração brutal. Com muita pena minha, não tinha o autor identificado para lhe poder dar os devidos créditos.

Mas olhei para ela e foi como se visse a visualização do que acho acerca da dependência exagerada do mundo virtual.

Entenda-se que passo muito tempo ligada à net e estou quase sempre com a página da minha rede social aberta. Não sou uma utilizadora esporádica do mundo virtual, antes pelo contrário. Já há mais de uma década que me iniciei na blogosfera e, desde então, a utilização do mundo virtual tem sido sempre a subir, por isso, acho que estou perfeitamente à vontade para falar deste assunto.

Mas o que distingue aquilo que faço por gosto, daquilo que hoje em dia virou quase uma necessidade premente é a facilidade com que me desligo e vivo longe do mundo virtual por períodos mais prolongados, se tiver que o fazer. A facilidade com que tranco o telemóvel no cacifo quando vou treinar e me esqueço que ele existe. A facilidade com que desligo os fones se estou rodeada de amigos de carne e osso.

Porque, quer queiramos que não, nós ainda somos seres humanos, não somos máquinas cibernéticas cujos organismos dependem do funcionamento virtual para a sobrevivência da espécie.

Chamem-me antiquada, mas prefiro estar numa tarde de sol em plena esplanada à beira-mar a tomar uma cerveja com amigos e a ter conversas reais, do que estar com a cara enfiada em falsas paisagens paradisíacas no écran do computador.

Não há NADA que substitua o calor humano. O som de uma gargalhada real em vez de um LOL. Um beijo e um abraço em vez de uma catrefada de letras e símbolos. Não há substituto para um «adoro estar contigo, vamos repetir» real, saído da nossa própria voz. Um sorriso sincero tem um brilho especial. A presença dos outros traz um brilho especial às nossas vidas.

Para mim, existe uma grande pobreza de espírito naqueles que dependem do mundo virtual para mostrarem ao mundo quem são na realidade. Ou para mostrarem uma pessoa cool e cheia de qualidades que, na realidade, não possuem. E sobre isto haveria tanto a dizer! Estão presentes neste tipo de comportamento as mais variadas pressões sociais a que estamos sujeitos, onde toda a gente quer viver de aparências e da aparência. Somos praticamente obrigados a ser fisicamente padronizados, a sermos divertidos q.b., inteligentes, sociáveis… Então onde fica o espaço para sermos nós próprios? Será que isso não é estreitar demasiado os horizontes da nossa existência?

Para mim, o que mais me diverte é poder ser quase bipolar e gozar os estados de espírito com que me levanto. Poder acordar mal-disposta e haver um acontecimento qualquer que me levante o astral num minuto. Chorar de baba e ranho num filme piegas e dar gargalhadas a ver desenhos animados para gente com menos duas décadas que eu.

É bom viver e tentar sobreviver no meio de uma selva de gente. É bom divertirmo-nos enquanto o fazemos. Gritar com quem nos enfurece. Beijar quem gostamos. É tão bom quando deixamos de nos importar com o que os outros pensam acerca do que fazemos e começamos a fazer realmente aquilo que é importante para nós.

Vitor

Usar a internet e estar ligada ao mundo e aos outros? Definitivamente, sim. Ser dependente desta Blue Drug, não obrigada. Viver é demasiado bom para isso 🙂